quarta-feira, 28 de abril de 2010

João Batista de Andrade é daqueles poucos cineastas latino-americanos que, não obstante as dificuldades, trabalham iluminando acontecimentos.
L. NOVIKOVA
Sputnik Kinofestivalia
17 / julho / 1981
Quando da premiação de
O Homem Que Virou Suco no Festival de Moscou


Considerações introdutórias sobre O homem que virou suco
Ariane Abdallah Newton Cannito
disponível em: http://aplauso.imprensaoficial.com.br/edicoes


Ao falar de O Homem Que Virou Suco, não são necessárias grandes apresentações. Trata-se de um dos filmes mais conhecidos da história do cinema nacional. Circulou com sucesso no cinema brasileiro, foi muito premiado internacionalmente e obteve seu maior sucesso em circuitos populares e cineclubes criados juntos a sindicatos e organizações de todo o Brasil.
Até hoje, O Homem Que Virou Suco é um dos filmes mais utilizados por professores para discutir a questão da migração nordestina nas décadas de 1970 e 80. Dessa forma, mesmo com a tradicional resistência para a exibição televisiva , O Homem Que Virou Suco se tornou um dos filmes brasileiros mais presentes no imaginário de nosso povo.
Ao mesmo tempo político e humano, o drama em torno do nordestino Deraldo, que vai a São Paulo vender sua poesia e é confundido com Severino, um operário que matou o patrão, fala, acima de tudo, sobre a realidade do imigrante.
A história mitológica do duplo é narrada em tons de documentário, com câmera na mão e filmagens em locação. Além disso, os registros presentes na obra não se restringem aos conterrâneos do protagonista. O próprio diretor do filme, o cineasta João Batista de Andrade, nasceu em Minas Gerais e sentiu as dificuldades de se adaptar à cidade grande e perder-se de suas origens, quando se mudou para a capital paulista. O Homem Que Virou Suco é um pouco ficção e um pouco documentário, com um “quê” de autobiografia.
Como é comum nas grandes obras, o filme conciliou inovação estética com impacto cultural, superando falsos dilemas entre arte e indústria. A força do filme foi tanta que ele superou os tradicionais limites da exibição em salas de cinema e se propagou por todo o País, via cineclubes e movimentos da sociedade civil. Essa experiência alternativa de exibição tem história na obra do diretor João Batista de Andrade e começou com o movimento do Cinema de Rua. Nele, Batista realizou pequenos filmes temáticos – sobre segurança no trabalho, a questão dos migrantes, a questão do transporte, etc. –, que foram exibidos em todo o Brasil com apoio da sociedade civil. Essa experiência consolidou a Dina Filmes, que mais tarde teve importante papel na distribuição de filmes ligados ao movimento operário do ABC, como Greve, outro filme de João Batista de Andrade.
O Homem Que Virou Suco, no entanto, foi a primeira experiência com longa-metragem. No seu conjunto, essa experiência do cineclubismo brasileiro foi uma das maiores e mais interessantes tentativas de superar o oligopólio da distribuição e exibição de filmes no Brasil, cujas salas são formatadas para exibir um único tipo de filme excluindo o cinema brasileiro de apelo popular.
O interessante no cinema de João Batista de Andrade é que o cineasta nunca confundiu público com mercado. Por isso, apesar de sua vontade em dialogar com o público e fazer um cinema popular, Batista nunca o submeteu ao absolutismo das regras únicas do mercado, que tentam naturalizar a situação atual desse segmento, como se essa fosse a única alternativa comercial realista para os filmes produzidos. Para Batista, as regras do mercado são limites com os quais seus filmes dialogam e não cadeias às quais ele deve estar submetido. Batista entendeu que um filme diferenciado pode e deve encontrar seu próprio público e conquistar seu próprio mercado.
Uma das coisas mais interessante em O Homem Que Virou Suco é que o sucesso do filme não veio apenas do circuito tradicional de salas e sim do circuito alternativo.
Esse filme é a prova de que bons filmes devem procurar seu próprio público e não se submeter ao padrão atual de público das salas de cinema.
O Homem Que Virou Suco é um filme inconfundível, principalmente por conta de sua forma inusitada de abordar uma realidade já tão explorada, na maioria das vezes, de maneira superficial e estereotipada.


(No Livro online da Imprensa Oficial - http://aplauso.imprensaoficial.com.br/edicoes - encontramos um farto material para tentarmos entender o fenômeno O Homem Que Virou Suco. O livro oferece ao leitor várias abordagens distintas: o roteiro completo do filme, entrevistas sobre o processo de criação, depoimentos sobre a distribuição e sobre o impacto do filme no público, e uma seleção de críticas de autores como José Carlos Avellar, Heitor Capuzzo e Jean-Claude Bernardet, entre outros. O livro celebramos mais uma iniciativa de perpetuar o trabalho de João Batista, dividindo com o público entrelinhas e cenas reais que marcaram os bastidores da produção. Contextualizando sua obra, pretende estimular, além de uma extensão de entretenimento que começa na tela, a reflexão sobre um dos temas mais presentes na nossa realidade atual e, portanto, uma reflexão sobre a relevância da discussão que o autor propõe para a história do país.)





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